Foi isso que eu quase falei hoje pra vendedora que me atendeu na loja de sapatos outro dia. "Mãezinha, você não quer ver alguma coisinha pra você também???". Claro que sou uma jovem senhora ligeiramente acima do peso muito bem educada, não mandei a vendedora pra onde eu imaginei, mas que deu vontade, ah, isso deu!!!!
Será que dá pra alguém me explicar por que, ó deuses dos sapatinhos de crochê, toda vez que um bebê entra na nossa barriga, começam a falar conosco em termos de "inho"???? Tudo vira "inho": não usamos mais roupas, usamos "roupinhas", não temos mais conversas, temos "conversinhas" (e quando é o seu obstetra/marido/chefe, que vem querendo ter uma conversinha, ferrou!). É como se mais ou menos toda a população mundial encarnasse a Hebe Camargo quando fala com você. Com sorriso e tudo, achando tudo uma "gracinha"!
E a coisa não melhora quando o bebê sai da barriga, não! Lembro de quando eu estava na maternidade, grogue da anestesia, ultra-mega-über-enjoada; não é que vem um enfermeiro cheio de sorrisos, falando: "Olha mãezinha, você pode estar sentindo uma vontadinha de dar uma vomitadinha, mas eu vou te dar um remedinho e isso vai embora rapidinho, tá?"
E quando vieram me ensinar a trocar as fraldas? "Mãezinha, você pega a perninha, dá uma levantadinha, limpa o cocozinho do bumbumzinho, passa a pomadinha..." E tudo isso coroado por uma voz melosa, baixa, fina... Péra lá, Dona Dirce, por acaso eu perdi neurônios quando o bebê nasceu e ninguém me avisou? Até os amigos com quem eu estava discutindo política externa, quase à base da agressão física, passaram a me tratar com o "inha", com o tom de que achavam que eu tivesse alguma dificuldade de compreensão...
Tudo bem que isso bem pode ser o reflexo do pedestal que colocam as mães, do status de criatura angelical que as mães recebem, mas respeitar o status de mãe não quer dizer botar a mulher ladeira abaixo, né não? Até porque desde que o mundo é mundo a mulher assume um monte de coisas quando se torna mãe, que não tem nada a ver com o "inha": é cuidar de casa, passar noite acordada, enfrentar o mal estar de depois do parto, adaptar horário, reorganizar a casa, encarar as fraldas, as golfadas, os choros com origem não-identificada, armar logística pra sair... e nisso tudo, ainda achar espaço pra ser você mesma!
Agora mesmo, estou aqui sentada escrevendo enquanto minha filha me chama a cada cinco segundos para tomar o chá de brincadeira, ajeitar a roupa que está incomodando, pedir pra ler o gibi novo, pra usar o computador... sem contar o tanto de coisas que a gente já fez e ainda tem pra fazer, do trabalho, de casa, sempre com um sorriso nos lábios, né, porque se você estressa você passa a ser a "estressadinha"...
E com tudo isso ainda vem povo me chamar de "mãezinha"???? Ah, faça-me o favor, mãezinha é a mãe!